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Devia ser proibido que as crianças mandassem nos pais

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Ser o melhor do mundo de alguém e dizer "sim" a tudo o que ele diz não é amar. Porque nunca se faz cerimónia com quem se ama

“Devia ser proibido que as crianças mandem nos pais. Aliás, se as crianças mandam nos pais deviam poder votar. E, mais, deviam, ter uma palavra - muito preciosa! - sobre poderem não ir à escola. E para recusarem dar um salto ao dentista. E para pôr a sufrágio a necessidade, inquestionável, de lavarem os dentes, todos os dias. E, deviam, ainda, ter opção de escolha a propósito da realização dos trabalhos de casa. E sobre a necessidade de irem para a cama, na "hora das crianças", sem direito a verem desenhos animados, até se cansarem. E já que são madrugadoras aos sábados e aos domingos, deviam poder dormir até às horas que muito bem entendessem, de segunda até à sexta. E deviam não ter de sentir que é obrigatório comerem a sopa, antes da sobremesa. Nem ter de estar sentadas à refeição, sem se levantarem e sem que lhes permitam ir à casa de banho, a meio do empadão. Tudo isto porque se os pais se consideram, tacitamente, incompetentes para serem pais, a ponto de delegarem essas funções nos seus filhos (quase como quem tem a sua sagrada "missão" à troca), tudo o resto - a palavra, as regras, a autoridade, a proteção, as escolhas, a sabedoria e o sentido de justiça dos pais - que é inerente ao seu compromisso para com eles, devia ficar suspenso, por providência cautelar, até que os pais decidissem reconsiderar que estão em condições de mandar em quem lhes manda.

 

É claro que não se trata de supor que todos precisamos de ter quem mande em nós. Mas de acentuar, com parcimónia, que autoridade de pais não é nem autoritarismo nem prepotência. Nada disso! A autoridade dos pais sobre os seus filhos não é mandar; é dar a mão. É segurar, é aconchegar e é orientar. É, muito mais do que parece, mimar. E, de certa forma, fazer escolhas por eles e, em nome deles, convidá-los a crescer. Tudo isso ancorado na sua sabedoria e na sua bondade. Com uma certeza, claro: que é a partir delas que as crianças reconhecem que os pais têm, só por isso, legitimidade para serem pais. E, precisamente por isso, merecem que o seu amor faça com eles aquilo que há de mais sagrado.

 

Mas, afinal, o que é que se passa para que tantas crianças pareçam mandar nos pais? O que é que foi acontecendo para que tantos pais, que são os campeões universais da bondade, se encolham e, até, vacilem quando se trata de dizerem "não!"? O que é que os terá levado a comportarem-se com os filhos como se eles, pais, parecessem pequeninos e assustados e eles, filhos, "encarnassem" o lado mais senhor de si, mais autoritário e mais "a antiguidade é imposto, certo?" que os seus próprios pais poderão ter tido? Ou - o que também pode ter acontecido - o que é que os foi empurrando para o pressuposto que terão de ser de "algodão doce" para que os filhos os amem, os admirem e os respeitem? Ou, finalmente, o que é que os terá posto a imaginar que não dizerem "sim" e "não", sempre que entendam, será aquilo que melhor "paga" as "faturas" pelas suas faltas, pelas suas ausências e, sobretudo, pela forma como não definem hierarquias de prioridades e não escolhem estar com os filhos, mesmo quando podiam estar com eles?

 

E, depois, quem é que, de forma malévola, se pôs a dizer que as crianças precisam de "muito diálogo", de imensas explicações, e precisam de ser "levadas a bem" porque, doutro modo, tudo as traumatiza? Mas quem é que não gosta que os pais sejam respeitosos e justos e, de forma coerente e de acordo com tudo aquilo em que acreditam, eduquem, definam modos de estar, formas de responder e, mais, definam trilhos e tudo o resto que desbrava o mundo e dá bravura a um filho para que ele se empoleire na vida, a olhe nos olhos e faça de cada descoberta um planalto ou uma clareira e, então sim, possa crescer? Mas porque é que educar não é dizer "não"? Estarão os pais atentos para que não são os seus "sins" que orientam as crianças? Mas que são os seus bons exemplos e os seus "nãos" que, ligados uns nos outros, criam as condições para que elas cresçam? E, depois, porque é que todos parecem presumir que se educa sem dor? Ninguém quer, claro, que as crianças sofram e sofram. E, muito menos, que sejam atormentadas, intimidadas e aterrorizadas para crescerem. Mas, é claro, que um "não" dói sempre um bocadinho. E que é por isso que as crianças saudáveis só acatam um "não" depois de se enfurecerem, para fora ou para dentro. E só quando se resignam e não se perdem em "braços de ferro", por tudo e por nada, é que transformam as "dores do não" em "fatores de crescimento". E é, também por isso - porque não são de porcelana, porque não se partem nem se desmancham com um "não", como se deve dar - que, mesmo vencidas, recorrem à mais requintada demagogia e espalham "magia" com mais um "já não gosto de ti", ou "já não sou teu amigo" ou, ainda, com um "tu não gostas de mim".”

 

Eduardo Sá

 

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